24 de set. de 2011

A Batalha


A eternidade feroz que me acompanha sempre
para onde quer que eu vá
Me fere eu a firo, de morte
mas ela sempre estará lá

Um oponente atroz sempre astuto e valente
em um embate sem trégua
Lhe perfuro o peito, ele cai
e novo sempre levantará

Nos olhos escuros brilha a chama, a força
gentil segura e perene
Sem medo, suave consorte
fria domina a vida e morte



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23 de set. de 2011

Mistério


Procura, questiona, mas não pode encontrar
proíbe, com medo, o que não há de cessar
A ira desperta, mas já não há o que fazer
o que quer comigo não tenho, mas veja
se de fato deseja, pois cresce por todo lugar.

Ao chegarem, afoitos, insensíveis e brutos
pisoteiam a delicadeza que brota aqui e ali
Então, oculto o que há de mais precioso
seus sentidos nebulosos deixam passar
o que mesmo diante dos olhos poderia estar.

Aquilo de que  precisa (ou crê que precisa)
lhe incutiram com muito engano e malícia
De seu galardão impalpável está certo
diante do altar são tantas promessas
segue com gana, vivendo as avessas


Entre telhados e muros por vezes ela cresce
nos recônditos espaços também aparece
Mas até que a bruma noturna esclareça
aquilo que a luz do dia tem por devaneio
que não haja receio, enfim, que irá perdurar?


Então pare, se demore um pouco
espere, uns instantes que seja
momentos apenas, nada mais
e decerto o tempo te mostrará
o que a vida toda esteve a buscar




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Haiku II




Fim de tarde, o Sol enrubesce
a Lua aparece, faceira
e as estrelas descem a brincar no capinzal





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8 de set. de 2011

"Esses relógio são meus objetos de estimação. São apenas uma imitação muito imperfeita de algo que cada ser humano tem no peito. Pois, assim como vocês têm olhos para enxergar a luz, ouvidos para ouvir sons, também têm um coração para perceber o tempo. Todo o tempo que não é percebido pelo coração é tão desperdiçado quanto seriam as cores do arco-íris para um cego ou o canto de um pássaro para um surdo." 

Michael Ende, em "Momo e o Senhor do Tempo"


Normalmente não posto material que não seja de minha autoria, mas para esse trecho abri uma exceção.

16 de jul. de 2011

Haiku

Água mole em pedra dura
Bate e segue seu caminho
Até que tudo se misture








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5 de jul. de 2011

Pathétique

No jardim impalpável da noite fria
Te agasalhas em pétalas transmutadas
Em visão ali tão rara rosa
A encontro entre as cenas vislumbradas
Do céu e da terra em doce epifania

Em silêncio me quedo ao teu lado
Sutil anelo em contemplar teus traços
E tão sem demora, rosa
Que me perco em tempos e espaços
Sonhos em que brinco acordado

Segue a vida a sempiterna via
A que sorri em teus olhos cândida luz
São em ti tão clara rosa
Lumes delicados que a aurora fazem jus
E até me esqueço que anoitecia

Por teus mistérios eis me aqui
A saber o que há em teus caminhos
Sinto em ti tão cara rosa
Doces perfumes, e mesmo espinhos
E ao teu néctar vôo qual colibri

Oh, tu de muitas cores vestida
Desabrochamos ambos em desatinos
Também tu fulguras rosa
No efêmero encontro de nossos destinos
Um cálido enlace d´alma despida



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4 de jul. de 2011

Sonho

Nas alamedas da cidade inexistente
que só do outro lado se encontra
o ser ancestral liberto
regozija-se em mar aberto
junta-se a multidão sem conta
e nadam miríades de seres viventes


Então vagando pelos jardins suspensos
deito-me a beira da grande marquise
em um deleite absorto
indiferente ao certo e incerto
que só a brisa suave a relva alise
e ali nada mais existe de tão imenso


Eis que ela se aproxima vagarosamente
sorrindo, para se unir a gentil sinfonia
e deita-se por perto
o prazer redescoberto
de sentir a vida em sutil sintonia
eternidade apenas, momento presente.




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3 de jul. de 2011

Inferno


Exalam suspiros ao cair da tarde
Ignoram os signos, a serpente e a faca
Então teus servos constroem três casas
Nelas as paredes têm olhos e ouvidos
Quartos solitários, caminhos ocultos
Os túneis fedem venenos e sacramentos
E os mortos governam das profundezas

Lágrimas correm ao chegar a noite
Quando traiçoeira a porta se tranca
Aleijados e mudos, seus servos sufocam
Seduzidos por teus lábios vermelhos
Enganados por teus hábeis conselhos
Prostrados, reverenciam-te de joelhos
Tuas enluvadas mãos já não tocam

Na hora das trevas vem o desespero
Quando enfim ela revela sua face branca
Em fúria e loucura se agitam os gatos
Até mesmo a lua se esconde no céu
O sangue escorre manchando o véu
É então que o fogo cumpre seu papel
E tua carne viva é comida por ratos

E mais uma volta a roda segue girando
E aquilo a que dizes fortuna ou desgraça
São linhas que as três seguem tramando
Aos meros caprichos a questão que se faça
Quais são os sonhos que sustentam o alento
E quiça fora do tempo, ao levantar do pano
Compondo a visão da engrenagem do eterno
Vivam os deuses e demônios no coração humano



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28 de jun. de 2011

Macacos, Dancem!

Sobre a terra caminhamos
via poeirenta na curva do tempo
assomam alto os poderes soberanos
sobre os germes crescendo em tormento

Em marcha imóvel rumo ao sol
elas estendem-se certas de sua sina
mesmo a noite, a chuva em frio lençol
cobrindo rio, estrada e colina.

Brilha o farol no escuro atroz
e o ronco metálico fere o vento
o macaco descuidado vai veloz
ignorando a dor ou sofrimento.

Macacos dancem, macacos, dancem
Macaco deixe crescer também
Macacos nascem, macacos morrem
Macaco sozinho não é ninguém
Macacos andam, macacos correm
Macaco até lá no céu já tem
Macacos compram, macacos vendem
Macaco não vale um vintém
Macacos rezam, e dizem amém
Pro deus macaco no além.

Finda a noite em chuva forte
Lá vai correndo macaco pra casa
Pois frágil e a merce da sorte
É de fato sua pobre carcaça.

Você que vive aqui agora
Pense bem no que você fez
Aprende macaco não demora
Que a roda gira outra vez.




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