30 de mar. de 2011

Nebula

Alto, alto, prédios rodopiam, distantes
guerreiam os pequenos e os grandes 
sede de fogo, começar de novo
das cinzas
devaneios

Avistamo-nos, a multidão delirante
a casa,a velha, mulher e a moça
qual passaro descendo vertigo
ao ninho
antigo

A moça, velha em mágoa e escárnio 
a velha sábia na decrépita juventude
na multidão me esquivo grato
na noite
sozinho

Noutro refúgio do que fui outrora, agora
o tempo opera desatino destino
água e terra entremeio indômito
da janela
me rio

Na sala, presente, estranho, alheio
no entanto tudo ali é parte de mim
sinto o mover do infinito
memória
olvido

E nada ali me pertence mais, engano
se é que já me pertenceram um dia
tudo se passa na calada ausência
sonho desperto
alívio




27 de mar. de 2011

Amante



Em sua figura imponente

uma temível máscara de batalha:

feições ferozes e bestiais 

de azul escuro quase negro

grande bico a frente e a baixo

cabelo negro ao alto e a trás.

punhal oculto caminhos muitos 

mas quando a fúria do ordinário é tamanha 

ela se lança em batalha de ímpeto sem par

revelando a carne de perto

desata escarlate torrente 

a dançar sobre o veludo e asfalto

ao seu mero prazer bel  deviante





Ao repousar o corpo, desejo

se esvai em curvas mais suaves

ali reclinada sobre a esteira

sem sua face outrora ferina

sem couraça bico ou crina

revela os olhos de amazona 

traços de beleza feminina

e no rosto o sorriso primal

cúmplices e confidentes

assim entregues ao esquecimento

da terra  do céu e além

caímos no vórtice eternal

que gera o gozo e o tormento




1 de mar. de 2011

Cerne

Desvelando o cavalgar adormecido

Por entre as brumas das estações

Se entremeando nas frestas da matéria

Cravado em seu olho metálico reluzente

A partir do padrão do coração ardente

Se deitam os óleos dos ancestrais

Que na mente eletrônica se transmuta

Na figura fantástica do infinito



.

28 de fev. de 2011

Salto

    A água ruge abaixo, correndo lépida a seu destino, que não poderia ser outro senão um lugar mais baixo, como é natural. Claro, nada mais natural, o rumo ao inferior, descendente, lenta ou rapidamente, não importa, mas sem se deter jamais, para baixo. E se por vezes sobe, isso nada mais é do que um contratempo, uma distração perante o inevitável. Se ao final de tudo, isso não fizer mais sentido, então estará bem assim. Então subir, descer, ir para qualquer lado, será indiferente.
    Mas agora, a que é chamada gravidade faz seu papel, e o escorrer serpenteante escava os desfiladeiros que trazem a vertigem pela sua mera contemplação. Mas a contemplação não basta, e a água convida com seu canto enfurecido de eras de trabalho paciente, resultando num sulco reverberante belamente esculpido nos tons multicolores das rochas. 
    Do alto, ela contempla a água abaixo. À distância, ele a observa e a segue. As vezes, o caminho os leva para cima, mas seguem, ambos, para baixo, como é natural. Ela o precede, e a água, em sua sabedoria, os precede a ambos. 
    É um longo caminho para baixo.